Fechado há 5 anos, hospital em Juiz de Fora deixa de atender 43 cidades

Cinco anos após o fechamento, sob alegação de que seriam necessárias reformas, o serviço de urgência e emergência do Hospital Regional João Penido, em Juiz de Fora (Zona da Mata), continua com as portas fechadas, deixando indignados moradores e lideranças da região.

A requerimento do deputado Betão (PT), a Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) recebeu, nesta quarta-feira (4/9/19), dezenas de pessoas que vieram da cidade pedir apoio dos parlamentares, para que a unidade volte a funcionar. Ao final da audiência, os deputados Betão e Doutor Wilson Batista (PSD) se comprometeram a levar o assunto à Secretaria de Estado da Saúde e continuar promovendo o debate com a prefeitura de Juiz de Fora, até que seja reaberto o serviço.

Betão considerou que as respostas dadas pelos representantes do hospital e do Estado não foram suficientes para esclarecer a questão, até porque a prefeitura não mandou representantes para o debate.

O hospital João Penido fica no bairro Grama, região nordeste de Juiz de Fora, mas atende a cerca de 43 cidades do entorno. Com o fechamento da urgência do João Penido, cerca de 70 mil pessoas estariam prejudicadas, segundo José Roberto da Silva, presidente da associação de moradores da região.

“Tem cinco anos que estamos nessa luta. São 28 bairros prejudicados só em Juiz de Fora. Pessoas com problemas urgentes têm que andar 25 a 30 km para serem atendidas”, disse ele emocionado.

“Fizemos vários protestos contra o fechamento, mas não conseguimos evitar. Fomos enganados. A administração da época disse que seria apenas uma pequena reforma”, reclamou a vereadora do município, Ana das Graças, que também reside no bairro.

Segundo os moradores, as reformas já foram feitas, mas a Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), a quem pertence o hospital, não explica porque não reativa o atendimento.

O vereador Júlio Obama disse que o outro serviço de saúde da região, que é a Unidade Básica de Saúde (UBS), só funciona das 8 às 17 horas e fica fechado com muita frequência. “Precisamos que a Fhemig seja clara. Se entendem que a vocação do hospital não é mais urgência e emergência, e não querem reabrir, que seja dito abertamente. Porque as obras já foram concluídas!”, enfatizou.

Estado e prefeitura teriam que resolver juntos a questão 

O superintendente regional de saúde, Gilson Lopes Soares, representou o governo na audiência. Segundo ele, o Executivo está sensível aos problemas da saúde na cidade, inclusive com a preocupação de concluir a construção de um novo hospital regional, que já está com mais de 50% das obras prontas.

“Mas o Estado não tem condições agora de fazer isso, não tem dinheiro. Daí a ideia, que ainda está em discussão, de se fazer as parcerias com o setor privado, para conclusão”, afirmou. Da mesma forma, o Estado não teria dinheiro para bancar o custeio das atividades de urgência e emergência no hospital João Penido, segundo ele.

O diretor do hospital, Daniel Ortiz Miotto, admitiu que o serviço do João Penido não foi fechado por causa das obras, mas sim por não ter sido inserido na rede de urgência e emergência da cidade.

Na opinião dele, a prefeitura também tem que mostrar que quer resolver o problema. “A gestão nesse caso é de responsabilidade da prefeitura, prestamos serviço para o município. O hospital está disposto a ajudar a população, mas não podemos reabrir o serviço por contra própria”, defendeu o diretor.

Vários outros vereadores da cidade, no entanto, entre eles Marlon Siqueira, afirmaram que a prefeitura chegou a oferecer R$ 150 mil por mês à Fhemig, para que fossem retomados ao menos os atendimentos de pediatria, cardiologia e obstetrícia. Mas a administração da rede não aceitou. “A Fhemig pediu um milhão de reais por mês, mas isso não temos condições de oferecer. Pedimos uma contraproposta, e eles não mandaram”, exclamou o vereador.

O deputado Noraldino Júnior (PSC) também foi enfático ao analisar que faltou boa vontade do Executivo local para resolver o problema. Segundo o deputado, quem fechou o hospital foi a prefeitura de Juiz de Fora, que alegou que precisaria do espaço para a reforma de leitos da Unidade de Terapia Intensiva.

“Temos ali um hospital já montado, com toda a estrutura, só precisa de custeio!”, exclamou o deputado.

Falta de pessoal – A ouvidora de saúde de Juiz de Fora, Samanta Boechat, afirmou que recebe diariamente inúmeras denúncias relativas ao não atendimento no hospital. Para ela, também falta transparência na gestão da Fhemig.

“Não podemos nos calar! Queremos reabrir as portas do João Penido, mas também tem que haver condições de trabalho e de atendimento“, acrescentou. Segundo ela, atualmente o hospital tem alguns aparelhos quebrados, como o de endoscopia, por exemplo, e pessoas internadas há dias, esperando por um exame ou procedimento.

De acordo com a funcionária do hospital e representante do Sind-Saúde, Lenir Romani, a carência da população é grande, mas também estariam faltando servidores na unidade. Segundo ela, hoje o hospital não teria pessoal suficiente para reativar o atendimento de urgência e emergência

Na opinião do presidente da comissão, deputado Carlos Pimenta (PDT), os hospitais da Fhemig em todo o Estado estão envelhecidos e precisam de atenção. Ele se comprometeu a continuar cobrando do governo a revitalização dessas unidades e a reabertura da urgência no João Penido.

A deputada Delegada Sheila (PSL) também destacou a importância do hospital para a região e se manifestou favorável à reabertura do serviço de urgência e emergência ali. 

Visitas – O deputado Carlos Pimenta também anunciou que a comissão deve iniciar uma série de visitas às obras dos diversos hospitais regionais do Estado, que estão paralisadas desde a gestão do ex-governador Antonio Anastasia. Os parlamentares da comissão estão preocupados com a possibilidade de que o atual governador Romeu Zema faça parcerias e entregue a administração dessas unidades a entidades privadas.